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A complexidade das operações corporativas e industriais exige que a alta gestão ultrapasse a visão estática das planilhas de risco. Relatórios de fiscalização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) evidenciam uma tendência preocupante de não conformidades críticas, indicando que muitas empresas não estão planejando nem provendo os recursos suficientes para a implementação eficaz de seus sistemas de gerenciamento de segurança. O grande desafio para os tomadores de decisão, portanto, não é a falta de mapeamento dos perigos, mas a falha na execução e monitoramento dos controles já conhecidos.
Para preencher essa lacuna entre a identificação técnica do risco e a garantia executiva de que as proteções funcionam, a adoção do método Bowtie (gravata-borboleta) tem se consolidado como uma abordagem pragmática, visual e de alto rigor técnico.
As raízes da metodologia Bowtie remontam ao final da década de 1970 na Universidade de Queensland, mas ganharam notoriedade global na governança corporativa após serem adotadas como padrão pela Royal Dutch/Shell. Hoje, a ferramenta evoluiu para ser um pilar aplicável desde a mineração até a gestão pública, sendo recomendada por instituições como a Controladoria-Geral da União (CGU) para o gerenciamento analítico de controles internos.
A força do Bowtie reside em sua arquitetura esquemática, que mapeia dinamicamente os caminhos que levam a um risco. O modelo estrutura-se em torno de um evento central (Top Event), que representa a perda de controle sobre uma ameaça. A partir desse núcleo, o diagrama se expande:
Ao evitar a complexidade exaustiva de relatórios densos, a vantagem técnica do Bowtie é traduzir causas, consequências e controles em uma única página visual que engaja desde as equipes operacionais até os conselhos de administração.
Uma armadilha letal na governança corporativa é a premissa de que a ausência de acidentes comprova que os controles estão operando adequadamente. A realidade de campo apresenta o conceito de “decaimento da barreira”, que pressupõe que qualquer medida de proteção pode falhar ou degradar com o tempo. Fatores operacionais reduzem a confiabilidade das barreiras a níveis abaixo do previsto em projeto, configurando sua degradação estrutural.
É neste cenário de incerteza que a Gestão de Controles Críticos (CCM) se torna imperativa. Fortemente defendida pelo Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM), a CCM foca no gerenciamento de Eventos Materiais Indesejados (EMI) — ocorrências de alto impacto que ameaçam a viabilidade do negócio.
O objetivo do Bowtie integrado à CCM é isolar o controle crítico: aquele mecanismo físico ou administrativo cuja ausência ou falha aumentaria drasticamente o risco de um desastre, a despeito da existência de outras proteções periféricas. Em vez de diluir recursos monitorando centenas de pequenos processos operacionais, a gestão foca naquilo que efetivamente blinda o negócio.
Identificar os controles no diagrama Bowtie é apenas a fundação. O real valor da metodologia exige instituir auditorias contínuas. A desativação ou falta de manutenção das barreiras de segurança é um dos maiores fatores causadores de incidentes na indústria.
Para manter os riscos no nível ALARP (As Low As Reasonably Practicable – tão baixo quanto razoavelmente praticável), o sistema de gestão baseado no Bow-Tie demanda:
A construção de um mecanismo de prevenção eficaz requer que a liderança visualize os gargalos reais da operação antes que se tornem crises. O método Bow-Tie força a organização a abandonar o conforto das análises superficiais e responder com pragmatismo: A sua empresa sabe exatamente quais são os controles críticos que impedem a concretização dos seus maiores riscos hoje? Há evidências de auditoria comprovando que essas barreiras não estão degradadas?
Investir na gestão visual e pragmática de riscos não é apenas atender a normativas; é uma decisão de economicidade que preserva ativos, evita interdições e assegura a reputação institucional em um mercado que não tolera negligência.
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