CEO da ERPLAN comenta sobre a tragédia em Brumadinho e aponta soluções para gestão eficiente de Saúde, Segurança do Trabalho, Meio Ambiente e Qualidade (SSMAQ)

Foto: Lucas Hallel / lucashallel.com
Lama de Brumadinho

As sirenes de alerta não tocaram e, na última sexta-feira (25), o rompimento de uma barragem da Vale na Mina do Córrego do Feijão, nos arredores da cidade de Brumadinho, Minas Gerais, resultou em um novo mar de lama que deixou mais de 90 mortos e centenas de desaparecidos. Entre as vítimas, estão funcionários da própria mineradora e moradores da região. O volume dos rejeitos vazados foi menor que o da tragédia de Mariana, em 2016, mas foi suficiente para destruir vidas, dezenas de casas, algumas unidades administrativas da empresa, propriedades rurais, a vegetação e fauna local, assim como os principais rios e nascentes do entorno. Ainda não há informações exatas sobre as causas, mas os trabalhos resgate das vítimas continuam quase uma semana após este triste acidente  – Leia mais informações clicando aqui.

“Houve falhas e faltaram soluções de gestão, controle e conhecimento suficiente para que este acidente fosse evitado. Acho que foi feito o possível, mas isso não se fez o melhor”, diz Edmar Rezende, CEO da ERPLAN, que conta na entrevista abaixo mais detalhes sobre sua visão como Engenheiro e Técnico de Segurança do Trabalho a respeito desse acontecimento. Para ele, independente do segmento, hoje este tema não pode mais ser visto somente como uma área de apoio em uma companhia, mas deve se fazer presente em todas as decisões das empresas.

Tendo ainda em seu currículo passagens como Gerente de Segurança Saúde e Meio Ambiente em organizações de grande porte – como a InterCement (Grupo Camargo Corrêa), em Pedro Leopoldo, da Companhia Industrial Fluminense (CIF), em São João Del Rey, e da União Industrial de Borracha (UNISA), em Contagem –, Rezende aponta sugestões para as áreas de Saúde, Segurança do Trabalho, Meio Ambiente e Qualidade (SSMAQ) para um gerenciamento de riscos mais eficiente. “É importante aprendermos com os erros”, completa o executivo.


Leia a conversa com Edmar Rezende (CEO da ERPLAN)

Como Engenheiro e Técnico de Segurança do Trabalho com mais de 23 anos de atuação no mercado, como você avalia o recente caso de rompimento da barragem em Brumadinho?

Edmar Rezende: Não tenho dúvidas que foi uma tragédia com impactos sociais e que nenhuma empresa ou profissional deseja viver essa experiência. Caracterizar o ocorrido como um crime ambiental cabe à legislação e as responsabilizações por toda as ações na esfera privada, federal, estadual e municipal. No entanto, é óbvio que houve falhas e faltaram soluções de gestão, controle e conhecimento suficiente para que este acidente fosse evitado. Acho que foi feito o possível, mas isso não se fez o melhor. Faltou um bom plano de emergência capaz de reduzir os impactos à vida e ao Meio Ambiente. Entendendo isso, agora começamos um novo ciclo, sem justificativas, mas com mudanças capazes de mover todas as esferas administrativas envolvidas.

De acordo com a ISO 31000, a gestão de riscos é uma terminologia utilizada para definir um conjunto de ações estratégicas relacionadas aos acidentes de uma determinada atividade. Como uma empresa de mineração pode atuar de forma mais preventiva?

A gestão de riscos é um grande desafio de toda a organização, independente do segmento. Portanto, deve ser feita uma gestão responsável e compartilhada, através de diferentes abordagens técnicas e comportamentais. É preciso compreender que os gestores precisam envolver as pessoas com qualidade e eficiência, tanto na coordenação quanto na operação. Também é extremamente importante, quando se tem um potencial alto de dano em caso de um acidente, um bom plano de emergência que seja capaz de salvar vidas. Neste cenário, cabe a equipe de gestores técnicos promover e analisar, por meio de simulados, ações que precisam ser tomadas para que o impacto seja o menor possível.

Depois do rompimento semelhante na cidade de Mariana, hoje existem diferentes órgãos que fiscalizam a atuação das mineradoras. Quem é responsável por essa fiscalização  no Brasil? Qual o papel de quem atestou a segurança da barragem da Mina do Feijão?

A fiscalização pode se dar na esfera federal, estadual e municipal. O papel dos engenheiros de segurança é analisar com critérios técnicos dentro de padrões estabelecidos através de inspeções visuais, equipamentos de monitoramento, controle rotineiros e uma série de modelos matemáticos e técnicas que sejam capazes de fornecer informações que possam prevenir, reduzir ou eliminar todo e qualquer risco. Estou certo que nossa engenharia é capaz de tais funções, mas as vezes falta vontade, brilho nos olhos e capacidade de colocar os estudos em prática com foco na técnica e no comportamento. É necessário responsabilizar, mas precisamos também aprender com o erro e interiorizar que nossos padrões para o controle e gestão deste tipo de barragem precisam ser revistos, discutidos, modificados, superados e até mesmo descartados, dando lugar a novos procedimentos. A tecnologia tem avançado demais e precisamos fazer uso dela para transformar essa gestão em algo mais seguro e eficiente.

Você teve a oportunidade de conhecer a região de Brumadinho antes do desastre?

Conheço bem essa região e já tive a oportunidade de ir a barragens desse nível, mas essa operação na Mina Córrego do Feijão,  em questão, não cheguei a conhecer. Infelizmente agora é um cenário desolador. Apesar dessa dor que não há como mensurar, precisamos de alguma forma mudar nossa realidade. Temos que ajustar o rumo de nossas ações, refletir e tomar novas atitudes que possam mudar a história profissional e técnica nesse tema. Está provado que ainda não somos os melhores que podemos ser. Estamos fazendo o possível, mas não o melhor.

Como um sistema de gestão integrada, como o SICLOPE – Sistema Integrado de Controle de Operações, poderia ajudar a avaliar e prevenir casos como esse de Brumadinho?

O SICLOPE é um software exclusivo da ERPLAN  que nasceu justamente da nossa experiência na operação e gestão de riscos nas empresas. A sua maior essência está na capacidade de envolver as pessoas nos problemas e soluções de uma forma simples, mas que disponibilize a todos os níveis da organização informações de qualidade, para que se possa conhecer os problemas e, enfim, se tomar as decisões. Decisões baseadas em dados rastreáveis.

Qual a importância das áreas de Saúde, Segurança do Trabalho, Meio Ambiente e Qualidade (SSMAQ) para o aprimoramento da cultura corporativa brasileira?

A gestão de SSMAQ precisa ser efetiva e envolvente, não há sucesso nesse sentido se não houver 100% de envolvimento das pessoas. Cabe aos gestores da empresas buscarem soluções e recursos para que as informações desses quatro alicerces sejam disseminadas à toda a organização, do chão de fábrica até a alta gestão.  E ter transparência nesse processo. O SSMAQ hoje não pode ser visto só como uma área de apoio, mas deve se fazer presente em todas as decisões da companhia. Quanto mais promovemos um envolvimento eficaz, mais atuamos diretamente na cultura da “operação segura” e não da “operação com segurança”.

Diante das muitas ameaças comuns no cotidiano urbano, como a segurança pessoal ou residencial, nossa sirene interna dispara imediatamente mas ela ainda parece ser pouco eficiente para os perigos silenciosos produzidos nos diversos ambientes de trabalho. Quais são os desafios que os gestores encontram hoje para melhorar a prevenção de acidentes?

O maior desafio é capacidade de criar o envolvimento dos colaboradores. A prevenção sempre precederá a uma ação, de um pensamento de antecipação. Por isso os projetos, as fases de estudo, as experiências se somam a um conjunto de fatores que nos permite analisar toda atividade com um olhar preventivo e antecipado.  É um desafio enorme, mas que precisa ser construído em conjunto. Devemos tornar aquilo que foi previsto e desenhado em ações rotineiras e reais. O tempo dedicado no planejamento precisa ser convertido e priorizado na sua aplicação. Não adianta nada criar procedimentos que não são cumpridos. Não adianta nada planejar e não realizar. Quando não se tem tempo para se fazer algo que foi previsto e planejado é por que deixou de ser prioridade. E é aí que mora o perigo.

Você considera importante desenvolvimento de novos mecanismos de segurança para que empresas e a própria legislação ambiental busquem continuamente um aprimoramento?

É importante aprendermos com os erros. Eu bato muito nessa tecla, pois acredito que errar é um aprendizado validado. Não faz sentido errar duas vezes a mesma coisa, isso é contraproducente. Assim como não há como esperarmos resultados diferentes se continuarmos fazendo a mesma coisa. Precisamos mudar se quisermos melhorar. Estamos em um momento de disponibilidade tecnológica única, com soluções cada vez melhores e mais baratas.

Olhando para a frente, como CEO da ERPLAN, teria alguma sugestão final para que o mercado nesse sentido, para que não se acomode nas antigas tecnologias para gestão de SSMAQ?

Com certeza! O nosso objetivo é ajudar as empresas a operarem com segurança. Tão importante quanto aprender com os erros é aprender a ser capaz de interiorizá-los de forma preventiva, de nos antecipar aos problemas. Para isso precisamos compartilhar as informações, as ideias e os resultados. Esse ecossistema de aprendizados precisa fluir de forma natural e simples. Trocar informações precisa ser tão habitual quanto abrir um e-mail ou enviar uma mensagem por aplicativo de celular. O mundo já é digital e a tecnologia nos auxilia com isso. Hoje, conseguimos unir várias tecnologias e testar novos métodos a baixo custo e compartilhar os resultados. Todos ganham. Precisamos fazer uso dessas inovações. Devemos criar o hábito de inovar e tornar nossos processos e operação cada vez mais segura.